Quatro prefeitos em exercício, um ex-prefeito, dois presidentes de câmaras municipais, advogados, empresários e servidores públicos estão entre os investigados na Operação ÔM3GA, deflagrada pela Polícia Civil do Tocantins na manhã desta quarta-feira (14). A investigação apura um suposto esquema de corrupção que teria movimentado milhões de reais em contratos públicos, com indícios de fraudes em licitações, pagamento de propinas e lavagem de dinheiro.
A ofensiva mobiliza mais de 100 policiais civis para o cumprimento de 70 mandados de busca e apreensão contra 41 alvos, em 11 municípios tocantinenses. As ordens judiciais foram expedidas pelo Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO).
As equipes realizam buscas em prefeituras, câmaras municipais, escritórios de advocacia, sedes de empresas e residências de investigados em Araguaína, Palmas, Ananás, Arapoema, Darcinópolis, Pau D’Arco, Pedro Afonso, Nova Olinda, Palmeirante, Colinas do Tocantins e Figueirópolis.
Entre os investigados estão quatro prefeitos, um ex-prefeito, dois vereadores que presidem câmaras municipais, sete advogados que atuam ou atuaram como procuradores municipais, quatro contadores, cinco empresários, além de secretários, servidores públicos e outras pessoas suspeitas de participação no esquema.
Justiça suspende contratos públicos e impõe restrições a investigados
Além das buscas e apreensões, a Justiça determinou a suspensão de todos os contratos públicos vigentes mantidos por 14 pessoas físicas e jurídicas investigadas com órgãos do Tocantins. Os envolvidos também estão proibidos de celebrar novos contratos com a administração pública.
Cinco investigados foram submetidos a medidas cautelares, entre elas a proibição de manter contato entre si e com determinados agentes públicos, frequentar as prefeituras e câmaras municipais envolvidas na investigação e prestar serviços em contratações públicas no Estado.
O Tribunal de Justiça também autorizou a quebra do sigilo bancário dos investigados para aprofundar a análise das movimentações financeiras e esclarecer a destinação dos recursos.
Investigação começou em Nova Olinda e Darcinópolis
A investigação teve início em 2024, após suspeitas de irregularidades em contratações públicas nos municípios de Nova Olinda e Darcinópolis. No decorrer dos trabalhos, a 3ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado de Araguaína (3ª DEIC) identificou indícios de que o mesmo grupo teria ampliado sua atuação para outras nove cidades tocantinenses.
De acordo com a Polícia Civil, a organização seria estruturada em dois núcleos principais. Um deles seria formado por sócios de um escritório de contabilidade. O outro seria comandado por um casal proprietário de empresas especializadas em sistemas, digitalização e gestão de documentos.
A suspeita é de que os integrantes utilizavam contratos de serviços contábeis firmados sem licitação como porta de entrada nas administrações municipais. Depois de conquistar espaço nas prefeituras e câmaras, o grupo supostamente direcionava novas contratações para outras empresas ligadas aos investigados.
Os contratos sob suspeita envolvem serviços de contabilidade, engenharia, digitalização de documentos e locação de veículos.
Durante a análise de arquivos digitais apreendidos com autorização judicial, os investigadores encontraram processos licitatórios, pareceres jurídicos, minutas de contratos e até propostas editáveis de empresas que, formalmente, deveriam concorrer entre si.
Para a Polícia Civil, o material reforça a suspeita de manipulação dos procedimentos de contratação para favorecer empresas previamente escolhidas.
Empresas receberam mais de R$ 10,3 milhões; repasses suspeitos superariam R$ 4 milhões
Um dos principais pontos da investigação é o volume de recursos movimentados pelas empresas envolvidas. Segundo a Polícia Civil, entre 2021 e 2025, as empresas de contabilidade investigadas receberam mais de R$ 10,3 milhões, provenientes, em sua maioria, de prefeituras, câmaras municipais e fundos públicos.
Desse montante, mais de R$ 4 milhões teriam sido repassados a agentes públicos e outras pessoas envolvidas no suposto esquema, a título de propina, conforme a análise financeira realizada pelos investigadores.
Os pagamentos suspeitos seriam uma contrapartida ao favorecimento das empresas em contratações públicas. Entre os possíveis beneficiários estariam agentes políticos, vereadores, secretários, procuradores municipais e servidores públicos.
A investigação também identificou indícios de lavagem de dinheiro. Entre as movimentações consideradas suspeitas estão saques e depósitos em espécie realizados de forma fracionada, além da utilização de empresas e terceiros para movimentar recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro.
Planilha registrava supostos pagamentos identificados como “voltas”
Entre os documentos encontrados durante a investigação, uma planilha datada de março de 2021 chamou a atenção dos policiais. O arquivo foi localizado nos dispositivos digitais de um dos suspeitos e, segundo a apuração, apresentaria o controle de pagamentos realizados a agentes públicos.
De acordo com os investigadores, os próprios integrantes do grupo utilizavam a expressão “voltas” para identificar os repasses. A Polícia Civil aponta que os valores registrados podem corresponder a pagamentos de vantagens indevidas em troca de favorecimento em contratações públicas.
O documento integra o conjunto de provas que deverá ser aprofundado a partir da análise dos arquivos e equipamentos recolhidos durante a operação.
Operação integra ação nacional de combate ao crime
A Operação ÔM3GA integra a Operação Protetor das Divisas, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Com o cumprimento das ordens judiciais, os investigadores buscam identificar a participação individual dos suspeitos, localizar outros possíveis beneficiários e dimensionar eventuais prejuízos causados aos cofres públicos.
O procedimento tramita no Tribunal de Justiça do Tocantins desde o início das investigações, em razão da presença de pessoas com prerrogativa de foro entre os investigados.
As suspeitas continuam sob apuração. A inclusão na investigação e o cumprimento de medidas judiciais não representam, por si só, comprovação de culpa. Os envolvidos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.










Deixe o Seu Comentário